sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Se eu pudesse ver.

Se eu fosse cega.


Eu veria tudo como se fosse falso.


Eu nao casaria.



Meu nome? Carla. Oque aconteceu? Eu nao sei.


Um dia eu acordei, e o sol nao brilhou. Senti o calor la luz do sol entrar pela janela, e bater no meu rosto, mas nao consegui ver o radiante sol se espreguicando. Tudo ficou escuro.


Foi um dia triste. Doloroso. Eu nao podia acreditar, que isso fosse chegar a acontecer. Teve alguma razao. Mas eu nao quis saber. Poderia influenciar meu gostos, meus medos.


Entao eu nao fui para o colegio. Meus pais nao podiam acreditar. Oque seria do meu futuro? Oque passaria das minhas notas, que nao sao mais brilhantes? Oque seria dos meus sonhos e meus desejos? Chegaria eu a casar?


Por que?


Deus fechou meus olhos, e esqueceu de abri-los.


Isso e injusto. E triste, doloroso.


Isso e muito triste. Nao sei explicar. Destroi uma personalidade formada. Eu tinha caracter forte. Agora ja nao acredito em nada, em ninguem. Oque posso fazer. Nada. Nao tenho mais esperancas.


E minhas amigas? Elas me procuraram, mas eu nao queria ve-las. Mas elas me encontraram, porque eu nao conseguia me esconder. Tudo dependia dos meus pais. Eles acham que eu precisava delas. Elas choraram. Eu nao quero que tenham pena de mim. Mandei elas sairem do quarto escuro, violentamente. Elas me abracaram fortemente. Chorei, de raiva. Chorei, desesperadamente. Eu precisava chorar. As lagrimas sao as ultimas expressoes do coracao, quando nao tem mais palavras.


Ninguem me amaria mais.


Meu sonho? Quero um romance. Quero casar, ter filhos, formar uma familia.


Para mim o homem ideal tem que ser alto, forte, bonito. Olhos grandes, a cor nao importa, mas tem que ter labios perfeitos. Sua voz tem que ser baixa, mas suave. Pensar nisso me deixa triste. Nao poderei saber se ele e lindo ou nao. Nao poderei ver, se meus filhos sao parecidos com o pai ou comigo. Eu nao aguento. Nao vivirei um romance. Nao casarei, nao terei filhos. Agora prefiro viver sozinha, doque viver com a pena de alguem.


Ninguem me amaria mais, alem dos meus pais.


E minhas amigas? Elas me visitam constantemente, me ajudam a fazer coisas que antes eu fazia sozinha. Do que falamos? De nada, agora eu nao tenho vida social. Eu escuto a vida delas. Acho que depois que fiquei cega, foi a unica coisa que parecia divertido. Eu imaginava os namorados delas, imaginava eles no cinema, tomando café, passeando na praca. Coisas que eu nunca verei. Talvez viver, mas ja nao acredito no amor. Me sentia feliz por elas. E elas se sentiam tristes por mim. Elas nao gostam de contar essas coisas. Sabem que foi meu sonho. Elas dizem que eu posso alcancar. Mas eu respondo que nao quero. Eu quero escutar as historias delas.


Marian me levava a praca, na esquina de casa, depois para tomar café, atravessando a rua. Antes eu odiava ir a cafeteria. Mas agora, meus gostos mudaram. Antes eu ia pro shopping. Agora nao.


Lidia me leva de carro, para um lugar longe, que tem muitos cachorros. Nao os via, mas era lindo poder sentir os pelos. Um dia, ela me deu um cachorro de presente, Sam. Eu nao sei se e macho ou femea. Nao quero saber, quero que seja feliz. Nao sei se o nome dele e Samuel, ou Samantha. Isso nao importa.


Abigail, minha vizinha, tem 16 anos, me leva para sentar fora de casa, e faz estrelinhas de papel. E fala da vida dela no colegio. Quando comeca a falar, ninguem para.


Quando eu saio de casa. Eu sei que todos me olham. Minhas amigas nao me dizem como me olham, mas eu sei. Algumas pessoas me olham com pena, “tao jovem..”, outras pessoas me olham agradaceidas “gracas a Deus, que nao sou eu”, e as criancas perguntam “mamae, porque ela esta cega?”. Isso nao me fere. Eu era assim, quando via alguem que nao andava. Eu era assim quando via alguem com sindrome de Down.


Eu nao tenho irmaos. Isso me deixa triste. Se eu tivesse irmaos, meus pais nao se sentiriam sozinhos, se tivesse irmaos, a casa teria mais barulho.


Como sou em casa? Calada, nao quero fazer nenhum barulho, para que nao se preocupem por mim. Nao falo de sentimentos com meus pais. Eu realmente nao quero que eles se preocupem por mim.


Faz tres anos que nao vejo o sol nascer. Agora ja tenho 21 anos.


Eu sei que sou bonita. Quando nada diz que sou cega, na praca, os homens chegam, e querem falar com Marian e comigo. Marian se casou, esta gravida de 2 meses, ja nao pode mais visitar-me como antes. Estou feliz por ela. Estou feliz de ver que ela vive a vida dela.


Estou namorando. Ele se chama Felipe. Dizem que e bonito. Mas eu nao sei, talvez falam isso para que eu me sinto mais confortada. E nao o amo. Namorando, meus pais ficariam mais tranquilos. Ele tem 25 anos. Faz medicina. Nao sei de mais nada. Nao quero saber da aparencia dele. Nao quero saber se ele me ama. Mas ele sempre diz, para que eu de uma chance para ele.


Lidia vem uma vez por semana. Aos sabados. Ela vem e diz que Deus existe, que Ele tem um proposito para mim. Que Ele tem o tempo dEle, e que isso, nenhum ser humano poderia entender. Eu gosto dela. Ela me ama de verdade, depois dos meus pais. Talvez seja isso que faz dos cristaos diferentes. Ele amam as pessoas incondicionalmente. Ela diz que quer me ver no ceu com ela. Eu respondi, que talvez me veja no ceu, mas eu nao a verei. Haha. Ela quer que eu va a igreja. Eu rio dela. E engracado.


Aby ja nao vem mais. As notas dela estao indo mal. Entao os pais dela decidiram nao deixar-la vir. Ate que melhore. Nao vai ser por isso que eu me sinta sozinha. So que, ja nao tem mais ninguem preenchendo o vazio da tarde. Sinto falta dela.


Agora passo muito tempo com Felipe. Eu nao sei quanto tempo ele separa para estudar. Eu nao sei quando ele vem. Mas sempre esta. Eu nao gosto dele. Meus pais gostam dele. Eu ja disse. Eu nao o amo. Mas o respeito.


Se eu pudesse ver, talvez minha vida fosse totalmente diferente.


Se eu pudesse ver, talvez meus gostos, minhas vontades, meus amores, seriam diferentes.


A oscuridao diante dos seus olhos, nao es o mesmo que a oscuridao em que eu vivo. Que poderia ser realmente o branco? O ceu esta azul hoje? Agora, meu ceu azul esta atras na nuvem branca, chamada memoria.


Se eu pudesse ver. Veria ele de longe, e ia correndo para abracar a ele fortemente.


Acho que Deus fechou meus olhos, e esqueceu de abri-los.


Eu quero que Felipe seja feliz. Coisa que nao podera ser comigo. Ele diz que sou muito amargurada. Eu disse que sofri. Ele diz que eu deveria ser mais positiva. Eu respondi, que para mim, o mundo e a escuridao.


Ele diz que quer me curar. E impossivel. Eu ja disse, nao tenho mais esperanca.


Eu quero morrer. Mas meus pais se sentiriam sozinhos. Se sentiriam como pais que falharam. Oque devo eu fazer, para que eles se sintam melhores?


Acho que devo ser feliz.


Mas eu nao acredito no amor.


Nem em Felipe.


Felipe me pediu em casamento. Ele disse que eu deveria ser mais sincera consigo. Agora ele tem 27 anos. Eu tenho 23. Eu disse, que a noite escura que ele via, nao era a mesma escuridao onde eu vivia. Eu disse, que o branco… quao branco sera? Eu disse que o ceu azul, ja nao e o mesmo do que estava atras da nuvem branca da minha memoria. Ele disse que eu deveria dar uma chance para mim mesma. Eu disse, que se eu nao tivesse perdido a visao, minha vida seria totalmente diferente. Que eu nao o conheceria. Ele disse que me ama.


Entao, eu discubri a felicidade, mesmo no escuro.


Ainda nao sei, se Sam e femea ou macho.


Ainda nao sei se Felipe e ou nao bonito.


Nao sei se meus filhos se parecem comigo ou com Felipe.


Isso ja nao importa.

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